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Ele é aquele tipo de cara especial. Aquele tipo que olha no fundo do olho, que traz café da manhã na cama. Passou meu vestido de manhã cedo. Aquele tipo que acorda cedo, tem emprego, carro, filho e ex-mulher.
Saímos várias vezes. E ele sempre deixou tudo muito claro, era um homem ocupado. A vida girava me torno do filho pequeno que morava com ele. E eu lá, perdida em meio a casinhos e sexo à três.
Até um sábado em que ele me chamou para almoçar. Me beijou fundo. cheirou meu cabelo. Disse que sonhou comigo, que estava com saudades. Deu comida do prato dele na minha boca e pela primeira vez não pagou a conta, pela primeira vez aceitou dividir.
Era esse o sinal que não percebi.
Quando o garçon levou os canhotos de cartões embora ele disse, com a voz mais doce do mundo: – Acho que não precisamos mais prolongar o sofrimento. Te trouxe aqui para dizer que vou voltar com minha ex-namorada.
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Conheci a Marisa na mesa de bar. Deu clique, ficamos amigas. Trocamos DMs e emails e sms e telefonemas e conversas em bar, em restaurante e em eventos.
Marisa sempre tinha uma palavra amiga e divertida pra mim. Me fazia rir com comentários idiotas e me fazia pensar com comentários profundos. Me aconselhou em diversas ocasiões. Me deu bronca em outras. E rimos juntas de uma coisa que era pra ser muito séria.
E aí ela morreu. Ontem.
Nunca fui na casa dela e ela nunca foi na minha. Nunca fizemos a maratona de True Blood que combinamos. Não fomos naquele bazar incrível com aquela marca baratésima. Nunca fomos no cinema juntas.
Eu queria ter estado mais tempo ali. Queria ter falado mais com ela. Eu tive muito pouco tempo com ela e não disse tudo que deveria ter dito. Nunca disse que ela era linda e inteligente; ou que eu a admirava profissionalmente e me espelhava nela nesse aspecto. Nunca disse que ela era uma boa mãe, uma boa amiga e uma grande companhia.
Eu fiquei muito triste quando soube. Um nó na garganta, um aperto no peito. Fui chorar no banheiro e ligar pra pessoas queridas. Depois fui comprar um chocolate na rua.
Ao chegar na esquina, vi um cara vestido de Mickey sair de uma casa e entrar numa kombi. Ele deu tchauzinho pra mim. Eu dei tchauzinho pra ele. Eu ri. E entendi que em algum lugar, a Marisa deu tchau pra mim e eu pra ela.
Mas estou falando isso tudo agora, porque depois não falo mais.
Silencio por hoje.
Isso não é uma hashtag imbecil. Pra quem a conheceu, bem entendido. Quem a conhece sabe que é uma homenagem. Pra mim, é uma despedida. Se até hoje eu sempre falei mais do que devia, e inumeras ocasioes, por ela eu vou ficar em silêncio.
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Ele tem um certo papel na minha história. Sempre fomos amigos, sempre tinha alguma coisa a mais. Quando a gente se via, eram horas muito bem vividas. Mas ficava por aí, os sentimentos nunca evoluíram para algo que motivasse superar a barreira das 4 horas de viagem entre uma cidade e outra. Nunca cogitamos namorar.
Durante esses quase dez anos de convivência – meio próxima e ao mesmo tempo distante – foi assim: tranquilo, sem dores de cabeça, sem nenhuma saudade que trouxesse sofrimento, nenhum arrependimento, nem expectativa de algo mais. Não é uma paixão, muito menos alguma coisa próxima ao amor. Manter uma certa distância foi uma opção bem consciente, que nunca me incomodou nessa história.
Um dia desses nos encontramos. Ele me conta que casou. Tá feliz, e eu também fiquei feliz por ele. Como sempre, conversamos, rimos, bebemos… e nos beijamos. Ficou por aí.
Alguns meses se passaram e entre nossas comunicações começa a surgir algo mais, uma frequência esquisita de sonhos que ele diz ter comigo, um certo galanteio que até é divertido, mas totalmente desnecessário.
Já temos data pra nos encontrar. Eu sei que, quando estamos juntos, tenho vontade de fazer coisas gostosas. Mas, agora, ele faz questão de deixar claro que está armando um esquema pra enganar a esposa.
E aí começa meu incômodo. Não sou moralista. Não acho que todo casal tem que ser monogâmico.
Essa nossa situação nunca expôs nem as namoradas (e a atual esposa) dele, nem os meus respectivos. Talvez eu esteja dizendo isso pra me convencer mais uma vez que não estou fazendo nada de errado.
Mas, então, por que me incomoda tanto?
Talvez por perceber agora, com esses galanteios esquisitos/xavecos furados, que ele é apenas mais um cafajeste.