7 da manhã. Não tem trânsito, mas o ônibus está cheio. São as pessoas que já pegaram um ônibus, talvez o metrô, e agora estão no mesmo ônibus que eu. Antes de entrar neste ônibus, eu resmungava.
Era cedo demais, eu queria dormir pelo menos mais uma horinha.
Mas essas pessoas me encantam. E a minha imaginação viaja, de leve, tentando adivinhar o que se passa na cabeça e na vida de cada uma delas.
Tem uma moça que eu tenho certeza que fez sexo ontem à noite. E acho que hoje de manhã também. Parece apaixonada. Fiquei até com inveja. O menino tá com cara de quem não agüenta mais o trabalho que tem. E não tem muita idéia do que pode fazer. Um senhor mais velho ta com um olhar longe, mas com o semblante sereno. Eu torço para que sejam boas lembranças. O cobrador não sabe dizer qual é o ponto que o rapaz precisa descer. É seu primeiro dia nesta linha. Mas as moças que estão do meu lado, pertinho da catraca, explicam direitinho pra ele. E começam a puxar papo. Eu adoro quando isso acontece.
Outras pessoas entraram no ônibus. Eu desci. Bem menos rabugenta do que quando entrei. Mais feliz.
Atravessei a rua e reparei nas pessoas dentro dos carros. São, para mim, bem menos interessantes.
O tio que vende bolo de fubá, de milho e cafezinho pra quem chega ao trabalho e as pessoas do ônibus: essas me interessam e me encantam.
E merecem mais respeito, mais linhas de ônibus, mais ônibus circulando, mais metrô, mais salário, mais possibilidade de viver os sonhos que têm na cabeça, e que minha imaginação limitada não chegou nem perto de descobrir quais são.