Archivado en: 500 | Etiquetas: amor, histórias, pessoas, respeito, vida, violência
Quando Joana nasceu sua mãe olhou para ela e sabia que ela seria uma guerreira. O pai, em compensação, pensou em colocá-la no processo de adoção por saber de antemão que não seria capaz de dar o futuro que ela merecia. Moravam em uma casinha tão pequena e modesta, o pai ganhava apenas o salário de auxiliar de obras e a mãe teria que voltar a limpar casas para sustentar aquele pedacinho de gente que ela já amava com todas as suas forças.
Mães são fortes. Quando o pai começou a desistir de tudo, a mãe o incentivou a continuar, Joana precisava do futuro bom que eles não tiveram, mas o pai sucumbiu para a bebida porque para ele, machista, filha mulher só servia para encostar a barriga no fogão e no tanque, para ele não havia esperança. Começou a colocar a culpa na esposa, que sempre quis menina, como se ela tivesse o poder de escolha, passou a maltratá-la primeiro com palavras, depois com as mãos. Nesse ambiente hostil, o pequeno pedaço de gente cresceu.
A mãe, de novo, sempre falou o quanto aquilo que o pai fazia era errado. Ensinou a filha a ser gente, ter valores, a correr atrás do que ela queria. A filha, por sua vez, sempre fez valer todos os esforços da mãe e do pai, porque mesmo que ele fosse um beberrão animal, ainda era seu pai. Filhos têm disso de amar ao pai mesmo que ele não preste para ser pano de chão de cachorro, Joana não era diferente, sabia que ali um dia houve um coração e respeitava isso, mas não aceitava.
Cresceu, estudava com dedicação por mais precárias que fossem as condições da escola. Começou a trabalhar aos 16 anos, atendente de telemarketing, tinha uma renda maior que a de seus pais, ia sustentar a casa. Como agora tinha como ajudar a mãe a trazer o pão e o leite para a mesa, decidiu que era a hora de ela parar de sofrer. Com dor no coração, denunciou o pai para a polícia e ele foi preso e condenado, tem que ficar longe dela e da mãe. Para as duas foi um alívio e uma oportunidade de recomeço. Por mais que ainda sentissem amor pelo pai, a mágoa e a tristeza imperaram e, em muito tempo, puderam sorrir.
Joana era inteligente e dedicada. Em um ano passou a supervisora do call center, com apenas 17 anos. A escola no período noturno era ainda pior que no período matutino, mas ela se esforçava o suficiente, corria atrás dos professores, procurava aprender mais para tentar uma bolsa. Era mal vista pelos colegas de classe, era a CDF e a puxa saco, mas era em quem recorriam caso um trabalho estivesse atrasado ou se precisassem de uma boa nota na prova. Isso não anula o fato de roubarem seus poucos materiais escolares, seu dinheiro e baterem nela de vez em quando, mas ela suportava porque sabia que a faculdade seria diferente.
Conseguiu uma bolsa de estudos. Mostrou quem era e a que veio, saiu da supervisão do telemarketing para ser estagiária naquilo que ela escolheu. A universidade não era bem o que ela esperava. Alguns professores aceitavam subornos sexuais em troca de notas, as pessoas que pagavam a faculdade não chegavam nem perto dela, drogas eram distribuidas nos corredores e ela era discriminada constantemente. Joana não desistiu, ela nunca desistiria por conta disso, havia passado por coisas piores em casa. Levava um sorriso no rosto mesmo que sua vontade fosse jogar tudo para o alto e sumir.
Joana se formou, trabalhava em uma boa empresa onde as pessoas a respeitavam e conseguiu dar para sua mãe uma casinha melhor, pequena também, mas suficiente para as duas. Fez bons amigos, conheceu um cara bacana e finalmente pode dedicar um pouco de seu tempo para ela. Tudo deu certo para Joana, mas não sem esforço e dedicação.
Dez anos na mesma empresa, o casamento quase certo e a mãe feliz. Joana saiu mais cedo naquele dia para ir ao banco, pegou seu carro e parou no semáforo. Um garoto veio pedir moedas, ela abaixou para pegar, o garoto sacou uma arma. Entrou no carro e a levou para longe, um lugar que ela nunca tinha visto. Ele se juntou com o bando, comemoraram, pelo que ela ouviu da conversa entrecortada, o fato de ser o quinto sequestro bem sucedido. O garoto dizia em alto e bom som que a melhor coisa que fez foi matar o próprio pai para tomar o controle do local. Abusaram de Joana, machucaram Joana e roubaram todas as suas economias. Ela não conseguia andar pela fraqueza e eles a abandonaram numa beira de estrada.
Foi encontrada três dias depois, quase viva e quase morta. Hospital, identificação, a pouca família, alguns amigos e Joana se recuperou, mas não totalmente. O pânico tomou conta da vida da agora mulher e ela não conseguia mais sair de casa, mesmo com toda ajuda possível e teve que adaptar a vida de antes para a vida de agora.
Tudo marcou Joana. Violência, ódio e tristeza.
Quantas Joanas mais terão que passar por tudo isso?
Cadê o respeito que estava aqui?