Projeto Quinhentos


#498 Meninas by projetoquinhentos
11/03/2009, 01:20
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E eis que no terceiro filho, meu pai queria um menino, e veio menina de novo. Para se vingar de tal acontecido, ele planejou nomes mirabolantes. Minha mãe foi generosa, e fui agraciada com este que não convém agora.

E em casa, de pequena eu levava bronca porque não era coisa de menina isso. E menina não brinca de carrinho, menina não gosta de chutar bola. Menina gosta de brincar de boneca. Menina penteia o cabelo direitinho. Menina usa cabelo comprido, onde já se viu!

Seu irmão pode, ele é homem. Menina tem que saber cozinhar. Cresci no meio de coisas de menina, sem gostar delas. Nunca gostei de rosa. E aliás, como eu era a segunda menina da casa, tudo meu era amarelo, roxo. Hoje eu tenho trauma. Não tem cor que eu odeie mais do que amarelo. Você não encontra UMA peça amarela no meu armário. Não há coisa amarela que combine com esta que vos fala. Roxo eu aprendi a tolerar. No fundo, me conformei com não poder usar azul, e não querer usar cor de rosa. Misturei ambos.

Aprendi a cozinhar. Acho que faço isso bem, mas meu irmão é melhor. Aliás, ele também levou inúmeras broncas porque cresceu no meio de menina e chorava por tudo. Eu nunca gostei que me vissem chorando. Algumas atividades de menino eu fui proibida. Não podia andar de bicicleta, de patins de skate. Cresci cobiçando tudo isso.

Video game, descontei minhas frustrações. Sempre joguei melhor que meu irmão, meus primos, meus amigos de escola. E era mais rápida no pega-pega corrente, na queimada, era melhor no basquete. Meus maiores amigos sempre foram meninos. E sempre os bagunceiros da turma. Por que diabos aquela menina chora tanto? E por que a outra vive de mexericos? Ah, me deixa!

Acho que eu cresci. Não tenho muita paciência pra maquiagem, mas gasto um bocado em sapatos legais, roupas que me agradem, cremes pro cabelo e hidratantes. Gosto de perfumes, gosto de flores, fiquei bem feliz de todas as vezes em que ganhei buquês. Gosto de chocolate e acredito em TPM. Passo algumas horas da semana de bob, de creme, de touca. Choro em fim de filme, de namoro, de novela. Desacredito nas pessoas e confio em recomeços, como todo mundo.

Quero a sinceridade masculina, na delicadeza feminina.

Não quero machismos. Eu posso tanto quanto ele, e não tenho a obrigação de carregar ninguém nas costas. Não tenho uma força extraordinária porque nasci mulher, nem uma inteligência suprema. Sou igual.

Porque entre machista ou feminista, prefiro ser humana.




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